MINHA

HISTÓRIA

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Para mim a questão da linguagem vem de muito cedo. Demorei muito para começar a falar. Sem nenhum diagnóstico preocupante, me deixaram à vontade.

 

Minha mãe era professora de piano e eu sempre estive na sala assistindo às aulas. Era o dia inteiro. Curiosamente as primeiras palavras que falei (já com três anos completos) foram: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Do resto eu me valia de mímica.

 

Para a família não sei, mas para mim foi ficando cada vez mais claro que havia encontrado na música uma forma de conversar, brincar, ficar alegre, contar segredos e tudo mais. Me relacionava com muita dificuldade com o externo – a vida cotidiana, as pessoas.


Cresci tocando e aos 11 anos me vi transformada em profissional.


Mas aqui não vou falar sobre minha carreira. Quero contar como cheguei a pensar a música de uma forma diferente.


Quando me percebi como profissional, não questionei sobre a maneira como havia conseguido tocar. Não tinha frequentado nenhum conservatório e nem tido professor particular – e também não tive nenhuma orientação de minha mãe.

 

Eu preferia o violão, porque era mais adequado ao meu tamanho e também poderia andar com ele pela casa. O piano era muito grande e eu não alcançava o pedal.

 

Gostava de vários estilos. Meu pai ouvia só os cancioneiros, muita música brasileira. Minha mãe preferia as músicas americanas. Então ouvia de Dilermando Reis a Oscar Peterson, passando por tudo que havia de muito bom, inclusive os eruditos. Quando eu queria tocar alguma daquelas músicas, apenas ficava ouvindo e em seguida ia para o instrumento e procurava até encontrar a sonoridade que me agradava.


Cresci achando que era assim que acontecia com todo mundo. Aos poucos fui vendo que não. As pessoas tinham dificuldade em entender o que estava acontecendo numa gravação. Eu achava que elas tinham preguiça de ouvir. Mas tentavam me convencer de que não, que elas não ouviam mesmo.


O que mais me encantava na música, era poder me comunicar com um mundo onde não existia a palavra. Eu já falava, mas continuava com dificuldade de dizer o que eu sentia.


Quando já estava perto dos 18 anos, minha vida profissional já bem ativa, convivia com músicos e cantores bem mais velhos. O pessoal da minha idade ainda estava frequentando escola e não tinha idade para sair à noite. Eu já estava emancipada.


Mas aquele glamour da carreira musical, não me chamava atenção. Eu tocava porque sabia e porque era melhor do que falar. Não via aquela atividade com a mesma ansiedade que percebia nas pessoas com as quais convivia. No entanto, nunca deixei de tocar.


Mas me intrigava ver que algumas pessoas estudavam muito e não conseguiam tocar, e outras não estudavam e tocavam. Eu me perguntava: O que fazia alguém ter a percepção que levava à execução de um instrumento?


Vi que também era diferente com aquele que estudava para ser um músico erudito, e finalmente realizava o sonho de ingressar numa orquestra. Tinha amigos nessa condição, mas percebia que apesar de tudo, eles não estavam de fato satisfeitos. Havia uma satisfação por estar empregado com segurança, mas não satisfação pelo o que estavam tocando.


Mais adiante fui encontrando pessoas que tentavam se dedicar só como instrumentistas, mas acabavam encontrando uma saída financeira mais segura dando aulas. Alguns faziam escolhas radicais, deixando de lado o “tocar”, outros não aguentavam e continuavam fazendo as duas coisas.


Também fui encontrando muita gente que abandonava de vez a música, transformando-a num sonho da juventude. Na hora de constituir uma família julgavam necessário ter uma estabilidade maior.


Todas essas ocorrências não saiam da minha cabeça. Achava que de alguma maneira era preciso encontrar uma solução. Para mim aquilo tudo era um problema bem grande, e que ficava maior na medida em que as pessoas acometidas, nem se davam conta da extensão do estrago que essa situação causava.


Analisei que as pessoas não percebiam, porque os estragos eram internos e não externos. Não era visível o que estava acontecendo. Era como uma doença silenciosa, que pode chegar a matar sem que o paciente perceba a existência dela. Causa da morte: tristeza.


Não é um exagero. A tristeza não é porque a pessoa parou de tocar, a tristeza é porque ela não se conhecia o suficiente para saber o que realmente desejava. Não saber qual o motivo para um sacrifício, só faz você sofrer mais.
 
Comecei então a ensinar música. Aulas particulares. Às vezes para músicos, outras para iniciantes. Mas procurava sempre saber o que eles mais ansiavam. Não importava muito de onde eu ia partir em termos teóricos ou práticos. Era preciso saber o que impedia essa pessoa de tocar.


Dessa época em diante (início da década de 70), fui me dedicando a entender o outro. Passo a passo, sem pressa, analisando cada perfil, cada comportamento. Associando com a expressão musical que cada um apresentava.


Resultou na forma como trabalho hoje. Dei o nome de "Terapia da Música", porque não trato da pessoa, trato da música da pessoa.


Não existe escola para isso. O que aprendi e aplico vem da minha experiência, do contato com cada aluno que atendi. 


Passo isso para todos que trabalham comigo e sei que muitos já estão com o mesmo pensamento, adotando essa filosofia com seus alunos.


O que priorizo é a relação do homem com a sua música.


O estudo formal é extremamente necessário. Aqueles que me procuram, ou já estudaram ou ainda estudam. E quando ainda não sabem nada, eu faço a iniciação musical necessária. Não fujo de nada do que pertence à teoria. A diferença está apenas na maneira de explicar.
 
“Eu não formo músicos, eu oriento o lado interno daquele que deseja ser um músico.”